Resenha: Proibido

Foram os três os motivos que me fizeram desejar ler Proibido, da autora Tabitha Suzuma: o primeiro, a capa belíssima e sensível; o segundo, o tema incesto, tão pouco explorado na literatura e um tabu em qualquer sociedade; o último, o fato de que a Editora Valentina informou aos parceiros que, quanto menos se soubesse sobre o livro, melhor. Todos esses fatos reunidos me encheram de expectativa, mas quando iniciei a leitura, foi como se um balão lentamente se esvaziasse e um vazio o preenchesse. É delicado explicar porque esse livro não me agradou como eu esperava, principalmente por ser um romance com uma recepção tão boa da crítica e também na blogosfera.

“Ela é doce, sensível e extremamente sofrida: tem dezesseis anos, mas a maturidade de uma mulher marcada pelas provações e privações da pobreza, o pulso forte e a têmpera de quem cria os irmãos menores como filhos há anos, e só uma pessoa conhece a mágoa e a abnegação que se escondem por trás de seus tristes olhos azuis.

Ele é brilhante, generoso e altamente responsável: tem dezessete anos, mas a fibra e o senso de dever de um pai de família, lutando contra tudo e contra todos para mantê-la unida, e só uma pessoa conhece a grandeza e a força de caráter que se escondem por trás daqueles intensos olhos verdes.

Eles são irmão e irmã.

Mas será que o mundo receberá de braços abertos aqueles que ousaram violar um de seus mais arraigados tabus? E você, receberia? Com extrema sutileza psicológica e sensibilidade poética, cenas de inesquecível beleza visual e diálogos de porte dramatúrgico, Suzuma tece uma tapeçaria visceralmente humana, fazendo pouco a pouco aflorar dos fios simples do quotidiano um assombroso mito eterno em toda a sua riqueza, mistério e profundidade.” Fonte

Lochan e Maya são os irmãos mais velhos de uma grande família, composta por eles e mais outros três irmãos pequenos: o rebelde Kit, o esperto Tiffin e a doce Willa. Abandonados muito cedo pelo pai e apesar de muito jovens, Lochan e Maya se viram no controle da família, dividindo as tarefas de casa e cuidando dos irmãos mais novos quando a mãe deles decidiu “aproveitar a vida”, ficando sempre longe de casa por causa do trabalho e do namorado, tratando os filhos como verdadeiros estorvos. Os irmãos se vêem abandonados uma segunda vez e, sendo assim, os mais velhos tomam uma posição de chefes da família, cuidando dos irmãos e das aparências, temendo serem denunciados ao Serviço Social e que, então, todos sejam separados. Por isso, desde muito cedo, Lochan e Maya não tiveram uma relação de irmãos, propriamente dita, mas sim de parceiros, companheiros no comando de uma casa, muitas vezes vistos pelos irmãos mais novos como a imagem de um pai e uma mãe substitutos. Isso criou uma aproximação diferente entre eles e, consequentemente, uma relação diferente.

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No começo, Maya e Lochan não entendem muito bem o que sentem e mantêm a relação de irmãos, cuidando de suas vidas. Eles ainda estão na escola e dividem o tempo entre as tarefas e cuidar da casa. O livro, na verdade, dispensa muito tempo relatando o cotidiano da família, em vários detalhes, às vezes em sequencias dispensáveis. A narração é em primeira pessoa, intercalada entre capítulos pelo ponto de vista de Lochan e, em seguida, de Maya. Foi uma boa escolha narrativa, exceto pelo fato de que as duas narrações são extremamente semelhantes e, em vários momentos, foi preciso que eu checasse o título do capítulo para me situar se era realmente uma narração de Lochan ou de Maya. Isso é um tanto quanto desagradável; o ideal seria que o leitor identificasse prontamente de quem era o capítulo ao invés de recorrer ao recurso do título, ou seja, o ideal seria que cada personagem tivesse sua própria voz, o que não ocorre. Outro ponto importante a se frisar aqui é que Lochan e Maya não são exatamente caracterizados como os adolescentes que são, muitas vezes utilizando palavras ou construções de frases não típicas dessa idade, maduras demais. Ok, ambos são personagens mais maduros que o normal, mas há um limite para o quanto um adolescente, mesmo maduro, diz.

“Até mesmo relacionamentos emocionalmente violentos e adúlteros costumam ser tolerados, apesar do mal que causam aos outros. Na nossa sociedade progressiva e permissiva, todos esses tipos de “amor” daninhos e doentios são permitidos – mas não o nosso.” Página 248

Mas aqui começa realmente a parte difícil. Eu peguei esse livro com a intenção de encontrar um romance entre irmãos que me deixasse com uma sensação de aperto no peito, que me emocionasse e que eu sentisse algo como “mas eles se amam, são bons juntos, por que não podem se amar?”. Eu queria muito ter esse sentimento, mas não foi o que ocorreu.

O que mais me incomodou nesse livro foi o fato de Lochan ser, indiscutivelmente, uma pessoa danificada em graus que nem ele, nem Maya, nem ninguém, nem mesmos a maioria dos leitores, parecem compreender. Ok, a situação que ambos passam é terrível. Eles são jovens e não deveriam ter esse peso enorme de responsabilidade nos ombros. Mas Lochan tem problemas sérios de relacionamento; ele não conversa com ninguém, ninguém, além dos membros de sua família; tem ataques de pânico se precisa conversar com pessoas na escola, falar na frente da sala de aula ou conversar com um estranho. Ele cuida da família, mas é completamente dependente dela, mal conseguindo respirar fora de casa. Quando algo dá errado, quando sente dor emocional, Lochan se mutila – isso mesmo, mutilação física – para “amenizar a dor”. Isso talvez tenha sido uma das coisas que mais me impressionou no livro, muito mais do que a tão temida palavra “incesto”.

Enquanto isso, Maya é só um pouco melhor; ela mantém as aparências, mas no fundo não aprecia de verdade a companhia de outras pessoas, de amigos, e às vezes até parece “fingir” que tem relacionamentos fora da família, apenas para disfarçar. Quando o relacionamento entre ela e Lochan se inicia, ela se afasta de todos, vivendo em função de ver e estar com Lochan.

“Mas sei que é ridículo, absurdo demais até pensar nisso. Nós não somos assim. Não somos doentios. Somos apenas um irmão e uma irmã que por acaso também são os melhores amigos um do outro. É assim que sempre foi entre nós dois. Não posso perder isso, ou não vou sobreviver.” Página 102

Agora pensem fora da situação irmãos, pensem que Maya e Lochan são apenas um casal: é saudável tudo isso? Essa obsessão, essa paixão arrebatadora que separa um casal do mundo ao seu redor?

Para mim não é.

O que realmente me decepcionou nesse livro foi isso. Durante toda a narrativa eu tive a impressão de que a autora passou que apenas pessoas muito danificadas, até mesmo perturbadas, são atraídas para um relacionamento incestuoso. Há até uma cena em que Maya e Lochan se perguntam exatamente isso, se apenas se amam dessa maneira devido à situação horrorosa que foram obrigados a viver, eles se questionam se tivessem pais normais, que cuidassem deles, ainda assim se amariam como homem e mulher, não apenas fraternalmente. E os dois não conseguem responder à pergunta. O que me decepcionou foi que eu esperava que o tabu fosse quebrado, questionado, desconstruído, e que o livro mostrasse que esse amor é possível e belo, não que seja apenas fruto de sofrimento e de uma situação miserável que danificou os personagens. Foi isso o que mais me incomodou no livro, o fato de ele passar, de certa maneira, que incesto não é praticado por pessoas emocionalmente estáveis, mas sim por pessoas extremamente quebradas por uma vida de dor e sofrimento.

O desfecho do livro leva ainda mais a crer nisso; excessivamente dramático, com alguns furos e bastante shakesperiano, foi um enorme balde de água fria para mim. O epílogo também pareceu incompleto, como se faltasse alguma coisa. Mas a parte dramática, de fato, não deveria ter sido surpresa, já que todo o livro se arrasta em um drama exaustivo. Sim, entendo o quanto a situação é difícil e sofrida, mas o drama é carregado em excesso, em vários e vários parágrafos que chegam a repetir a mesma ideia dos anteriores, cansando o leitor. Foi essa a minha maior sensação: cansaço, em um livro que eu queria desesperadamente me emocionar e não consegui.

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O livro se passa no Reino Unido, onde o incesto, mesmo consensual, é crime, algo que foi difícil de aceitar, já que aqui no Brasil, apesar de considerado “imoral”, o incesto não é crime, desde que seja realizado de maneira consensual e entre maiores de idade. Nesses momentos a familiaridade da ambientação é importante e, por ser brasileira, a todo momento achei toda essa tensão absurda. Para compensar, a edição foi caprichada. A capa chama atenção e todas as páginas têm detalhes que seguem o motivo da capa: arames farpados.

Por tudo isso, não consegui apreciar essa leitura. Não é um livro ruim, mas não me tocou como eu esperava, não chegou nem perto de emocionar. Ainda quero ler um livro sobre incesto em que o tabu seja, de fato, superado. Mesmo assim, é um livro bastante controverso, e acredito que cada leitor pode ter sua interpretação.

Livro gentilmente cedido para leitura e resenha pela Editora Valentina.

Ficha Técnica:

Título: Proibido
Autor: Tabitha Suzuma
Editora: Valentina
Páginas: 224
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon
Avaliação: 

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  • Caroline Centeno disse:

    Olá Karen.
    Primeiramente não tem como não se sentir atraída pelo livro ao ver a capa e ler a sinopse, é um tabu o que torna nossas expectativas muito maiores. Bom, fiquei decepcionada ao começar sua resenha pelo livro apresentar vários pontos negativos, os personagens não terem identidade definida em capítulos já é um alerta vermelho na leitura e outros tantos pontos que desmotivam a leitura, assim acredito que não vai ser um livro que ficará em minhas metas de leitura ):

  • Lorena Miyuki disse:

    Sabe o que toda a sua resenha me lembrou? Flowers in the Attic, que fala do “mesmo” drama e que tá pra ser publicado por aqui também.
    Tinha uma vontade imensa de ler Proibido por causa do tema, mas tenho a impressão de que não vou conseguir nem passar das primeiras páginas, o que é triste :/

  • Suelen Mendes disse:

    Que balde de água fria!Eu estava louca por esse livro,mas sinto que vou sentir as mesmas coisas que vc.Tudo o que vc falava que não concordava e que achava exagero pra mim está totalmente justificado!
    Vou querer ler o livro sim,mas agora com menos expectativas,quem sabe não fique tão frustrada com ele dessa maneira né.
    Bjus

  • Gustavo disse:

    A capa realmente é muito bonita (sou um fã irreparável de capas *-*) e a sinopse realmente me chamou a atenção, gosto de temas controversos e cheios de tabus e “polêmicos” (porque ter uma discussão civilizada com algum amigo depois dessas leituras é uma das melhores partes de um livro =D). Mas sinceramente me desanimei totalmente com esse livro, ele poderia dar o mesmo tom para ambos os personagens, e ser cheio de cenas desnecessárias que eu nem ligaria muito, mas dar a entender que o que eles tem é derivado de um lar destruído e porque eles tem problemas em se relacionar com outras pessoas me deixou muito frustrado. Se essas coisas fossem só um pano de fundo pra explorar a aproximação deles até dava para engolir e ficar satisfeito, mas fazer o que a autora fez me deu raiva. Um livro que, ao menos por alguns anos, esta riscado da minha lista.

  • Marília Sena disse:

    Bem, eu estou super ansiosa para ler Proibido, portanto não vou ler a resenha até ter lido o livro (principalmente porque as resenhas da Karen mexem com o psicológico). Volto para comentar a resenha em breve!

  • Ana Cláudia Castro disse:

    Queria tanto ler esse livro, mas a resenha me desanimou, entendi o ponto onde ocorreu a decepção e acho que comigo será igual.

  • Patrini Viero disse:

    Eu estava completamente ansiosa pra esse livro desde que li sua sinopse no Skoob, e depois que vi algumas resenhas mais do que positivas decidi que deveria mesmo conferir. A capa é de uma sensibilidade simples, mas nem por isso menos delicada ou importante. Achi-a linda! Quanto ao tabu, realmente é um belo tema para um livro, eu pelo menos nunca li nada que tratasse dele, acho que as pessoas tem medo de falar sobre assuntos polêmicos, e a literatura é um ótimo ambiente para eles virem à tona. Sua resenha me desanimou um pouco, mas ainda pretendo ler o livro, pois a curiosidade é maior que eu.

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu vi muita gente falando tao bem desse livro que me deu muita curiosidade, mas se for assim, com pontos de vistas diferente, mas que vc nao consegue identificar é chato mesmo, aí eu concordo com vc, mas eu ainda quero conhecer essa historia, fiquei muito curioso.

  • Patricia Moreira disse:

    Sou curiosa com esse livro desde antes de lançar aqui, mas sempre fiquei receosa por causa do tema do livro até porque é um tabu. Concordo com você sobre a questão de que embora eles se gostem se a relação não é saudável não vale a pena.
    Pra ser sincera não sei se lerei algum dia, mas acho essa capa linda haha

    Bjs

  • Nathalia Simião disse:

    Adorei sua resenha Karen, foi a primeira pessoa a dar uma opinião diferente do “esse livro é destruidor, muda o jeito de pensar e etc”. Eu não sabia que o Lochan é tão problemático assim, isso pra mim é uma doença, não sei qual mas é. Eu também esperava que a autora quebrasse o tabu e não colaborasse mais ainda com ele. Ainda assim, espero ler esse livro pra tirar minhas próprias conclusões.

  • Melissa de Sá disse:

    Todo mundo fala bem desse livro, mas confesso que sempre fiquei com o pé atrás. Não pelo tema, mas porque os comentários que ouvi de “lindo e fofo” me deixaram meio com medo.

    Essa coisa de irmãos se amarem e terem problemas de convivência me lembrou demais o livro “Lavoura Arcaica” (tem até um filme com o Selton Mello). A ideia é de que o irmão se apaixona loucamente pela irmã porque a família vive em isolamento. O pai, extremamente tradiconal, diz que o único amor verdadeiro é o da família. O protagonista leva isso ao pé da letra e tenta viver esse amor com a irmã, o que consequentemente destrói a família.

    Pela sua resenha, “Proibido” parece ser a mesma coisa: uma vida quebrada por motivos de sofrimento, dor e isolamento faz com a pessoa se vire para aquele familiar em quem confia. Então até que ponto isso é um amor e não mais uma projeção de uma mente com problemas e fobias?

    Também quero ler um livro sobre o tema que quebre o tabu.

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    […] Proibido, Tabitha Suzuma (resenha) […]

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