Resenha: Sobre a Escrita

Sempre tive vontade de ler esse livro, mas a preguiça de ler em inglês era igualmente proporcional. Foi então que Suma de Letras resolveu trazê-lo para o Brasil; aí não havia mais desculpas. Adquiri o e-book e li-o em doses, apreciando cada passagem da vida de King, cada conselho de escrita. Sobre a Escrita não é nem uma biografia, nem aqueles livros pretensiosos que querem ensinar a escrever, nada disso. É uma mistura de memórias e conselhos, tudo isso em tom de conversa, como se o próprio King estivesse batendo um papo conosco.

sobre-a-escrita-stephen-king-suma-de-letras“Com uma visão prática e interessante da profissão de escritor, incluindo as ferramentas básicas que todo aspirante a autor deve possuir, Stephen King baseia seus conselhos em memórias vívidas da infância e nas experiências do início da carreira: os livros e filmes que o influenciaram na juventude; seu processo criativo de transformar uma nova ideia em um novo livro; os acontecimentos que inspiraram seu primeiro sucesso: Carrie, a estranha. Pela primeira vez, eis uma autobiografia íntima, um retrato da vida familiar de King. E, junto a tudo isso, o autor oferece uma aula incrível sobre o ato de escrever, citando exemplos de suas próprias obras e de best-sellers da literatura para guiar seus aprendizes. Usando exemplos que vão de H. P. Lovecraft a Ernest Hemingway, de John Grisham a J. R. R. Tolkien, um dos maiores autores de todos os tempos ensina como aplicar suas ferramentas criativas para construir personagens e desenvolver tramas, bem como as melhores maneiras de entrar em contato com profissionais do mercado editorial. O livro também não deixa de lado as memórias e experiências do mestre do terror: desde a infância até o batalhado início da carreira literária, o alcoolismo, o acidente quase fatal em 1999 e como a vontade de escrever e de viver ajudou em sua recuperação. Ao mesmo tempo um álbum de memórias e uma aula apaixonante, Sobre a escrita irradia energia e emoção no assunto predileto de King: literatura. A leitura perfeita para fãs, escritores e qualquer um que goste de uma história bem-contada. Eleito pela Time Magazine um dos 100 melhores livros de não ficção de todos os tempos e vencedor dos prêmios Bram Stoker e Locus na categoria Melhor não ficção, “Sobre a Escrita” é uma obra extraordinária de um dos autores mais bem-sucedidos de todos os tempos, uma verdadeira aula sobre a arte das letras.” Fonte

Sobre a Escrita é leitura obrigatória para escritores, mas é também uma leitura extremamente proveitosa para quem é “apenas” leitor. É claro, se você for escritor, como eu, vai aproveitar muito mais a leitura; há ensinamentos inestimáveis nesse livro, mas eles vão além das técnicas de escrita – são também conselhos para a vida: como você deve fazer o que gosta, perseguir seus sonhos, insistir mesmo nas horas mais sombrias, tirar o melhor das críticas, mas não se deixar abater por elas. E muito, muito mais.

Dá vontade de citar o livro inteiro; talvez por isso tenha sido ótimo, ao menos para mim, lê-lo em e-book. Pude grifar e comentar o livro à vontade, sem medo de macular as páginas. Li na velocidade que queria, em qualquer lugar, às vezes apenas um pedacinho aqui, às vezes páginas e mais páginas acolá.

A primeira parte do livro – CURRÍCULO – é dedicada às memórias de King. Ele conta desde sua infância difícil, mas na qual ainda encontrou vários momentos de felicidade e inspiração, passando por suas primeiras incursões na escrita (e essas partes são extremamente emocionantes), o casamento com Tabitha – sua grande parceira e companheira, ele não se cansa de repetir, nós não nos cansamos de admirá-los e nos sentir tocados por seu amor sincero e real -, os momentos mais sombrios, como quando ele era alcoólatra, as publicações, o sucesso. É ao mesmo tempo inspirador e delicioso, assustador e amargo, ver como algum dos nossos livros favoritos foram criados. King narra tudo isso num misto de simplicidade e humildade que é cativante. Em Sobre a Escrita, sentimo-nos próximos como nunca não apenas do autor, mas também do ser humano.

“O apoio dela era constante, uma das poucas coisas com que eu podia contar. E sempre que vejo um primeiro romance dedicado à mulher (ou ao marido), sorrio e penso: ‘Aí está alguém que sabe’. Escrever é um trabalho solitário. Ter alguém que acredita em você faz muita diferença.”

A segunda parte – SOBRE A ESCRITA – são as técnicas de escrita. Para quem não escreve talvez elas sejam um pouco maçantes às vezes, mas para mim foram deliciosas. Aqui King usa a metáfora de uma caixa de ferramentas para falar sobre o ato de escrever e transfere com o coração tudo o que aprendeu escrevendo e publicando, com uma linguagem simples, acessível, e valendo-se sempre de muito bom humor. Acima de tudo, ele reforça o que sempre diz em palestras – um escritor é primeiro um leitor, portanto, se quer escrever, leia, leia sempre, leia muito, leia de tudo. Ler nunca é o suficiente: há sempre mais e mais para ler. E escrever também: há sempre mais para escrever, mais mundos a serem explorados (ou fósseis a serem desenterrados – e adorei essa metáfora de King), espaço para melhorar. É um pensamento que compartilho aqui: você sempre pode ser melhor, escrevendo ou fazendo o que for, afinal, que graça teria já ter feito o melhor em sua vida? O melhor que podemos fazer ainda está por vir, sempre.

O final do livro – SOBRE A VIDA – é dedicado a um desabafo, um acontecimento que afetou King em vários níveis: o seu acidente em 19 de junho de 1999, um atropelamento que poderia ter-lhe tirado a própria vida (quem leu A Torre Negra sabe muito bem tudo isso, inclusive porque destaquei o “19” – ele está em tudo. Leia a resenha de O Pistoleiro). O acidente ocorreu exatamente em meio à escrita de Sobre a Escrita, por isso seria impossível ficar de fora do livro. Uma das coisas mais bonitas dessa parte é ver como King superou a própria dor e como confessa que, apesar de a escrita não tê-lo salvo – foi o seu competente médico e, claro, Tabitha, sempre ao seu lado -, o ato de escrever aliviou sua dor, tornou a vida mais suportável e, finalmente, mais feliz. É exatamente o que a escrita faz.

“Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.
Beba até ficar saciado.”

Há ainda um ótimo trecho de Sobre a Escrita em que King insere um trecho do seu conto “1408” em dois momentos: o primeiro rascunho (com a porta fechada) e o segundo, após a própria revisão de King (com a porta aberta). É incrível ler um texto consagrado como esse em sua versão mais bruta e acompanhar a lapidação do texto. É outra das coisas que trazem King mais próximo do leitor e, claro, do escritor que o admira, além de reforçar a importância não apenas da escrita, mas da reescrita, da revisão, da auto-crítica.

Aqui no Brasil o mercado é duro, terrível, até cruel. Demora muito para você poder dizer que é um escritor. Tenho dois romances publicados e mais de outras vinte publicações, entre contos, revistas, e-books e prêmios literários, mas acho que só vou conseguir dizer com todas as letras, em todos os lugares, que sou mesmo uma escritora no dia que isso pagar integralmente minhas contas. Mas, então, como não desanimar? Bem, apesar das dificuldades, apesar de cair e levantar todos os dias, é o ato de escrever que faz tudo valer a pena. A escrita não salva, mas é capaz de encher de alegria o coração de quem escreve – para depois, talvez, fazer o mesmo com o leitor. Desde que comecei a escrever (e isso foi lá quando criança também), nunca mais parei, nem mesmo nos momentos mais sombrios da minha vida – e alguns foram bastante dolorosos. Mas a escrita sempre esteve lá. Sempre.

Acima de todos os ensinamentos valorosos que King me passou nesse livro, foi esse que mais tocou meu coração. E por mais que não consiga pagar todas as minhas contas com livros, sei que a escrita me acompanhará. Em Sobre a Escrita, temos a rara e incrível oportunidade de escutar King falando como um amigo, um professor, e ficamos mais próximos dele do que nunca. As suas ficções, suas histórias de terror, sempre terão um lugar especial na minha estante, mas talvez Sobre a Escrita seja um dos melhores livros do mestre. O coração dele, inteirinho, está logo ali, naquelas páginas, à distância de uma leitura.

Ficha Técnica

Título: Sobre a Escrita
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 256
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon / Saraiva / Casas Bahia / Livraria da Folha / Extra / Ponto Frio / Magazine Luiza / AmericanasLivraria da Travessa
Avaliação: 

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  • Gustavo disse:

    Li tão pouca coisa do autor e ele Jane um dos meus favoritos. Quero muito esse livro, principalmente pela parte de memórias, já que esse ano estou na vibe de biografias, então só tenho mais vontade ainda de ler esse livro. Ele é um autor que admiro muito, e deve ter uma história impressionante e ótimas lições para ensinar e passar para escritores ou aspirantes a escritor. Os trabalhos dele são no minimo admiráveis, e se ele conseguir passar ao menos metade do talento para alguem (alem do filho que também é incrível *-*), vamos ter ao menos mais uma geração de escritores brilhantes pela frente. Esse é um dos menores livros dele kkkk deveria ser maior =P

  • Melissa de Sá disse:

    Li esse livros anos e anos atrás, antes de entrar na faculdade e lembro que ele também aqueceu meu coração. Não consigo entender quando as pessoas dizem que Stephen King é um babaca sem talento. Não consigo mesmo. Ele tem sim seus momentos ruins, mas tem ideias incríveis e costuma fazer comentários bastante sensatos.

    Um livro sobre escrita que me emocionou muito foi “Negociando com os mortos”, da Margaret Atwood. É diferente do livro do King, menos pessoal e mais reflexivo, mas ela faz uma metáfora linda: escrever é como entrar numa caverna escura, que leva ao mundo dos mortos, dos escritores que vieram antes de nós. Então vamos negociar com eles, trocar nossas histórias, e decidir nosso próprio caminho na escrita.

  • A Cuca Recomenda: Neon Azul | Por Essas Páginas disse:

    […] que são assim: você lê uma única linha deles e sabe que aquele é um autor excepcional. Em Sobre a Escrita, Stephen King diz que existem três tipos de escritores: os fracos, os competentes (que você pode […]

  • Resenha: Achados e Perdidos « Por Essas Páginas disse:

    […] Letras (alguém me diz como o King consegue escrever tanto, gente! Espera, eu já sei, porque li Sobre a escrita, mas que ele é uma máquina, isso ele é!). Como estou um pouco atrasada nas leituras, só […]

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