Resenha: Uma história de solidão


O quanto você sabe sobre a vida dos padres? Já parou para pensar neles, não como o ser inatingível que fica em cima de um púlpito, mas como uma pessoa? E quando você pensa em um, qual a primeira ideia que lhe vem à cabeça?

Com uma narrativa sensível e brilhante, John Boyne aborda um tema pouco debatido, em mais uma obra tocante. Quando a Companhia das Letras publica mais uma obra desse meu autor de cabeceira, eu corro para ler no mesmo minuto. Vamos à resenha.

história_solidão“Odran Yates era um garoto tímido nascido na Irlanda dos anos 1950. O país tinha uma longa tradição católica, e as leis da Igreja moldavam a sociedade com rigor claustrofóbico. Filho de um pai alcoólatra, que morreu com a certeza de que era um grande ator, e de uma mãe que abandonara a carreira de aeromoça para cuidar da família, Odran abraçou o caminho eclesiástico como único destino possível.
Primogênito de um lar disfuncional, que se tornou sufocante após uma tragédia familiar, Odran obedece à mãe e vai estudar em um seminário, onde conhece Tom Cardle, de quem se torna amigo. Ao contrário de Odran, tímido, inocente e reservado, Tom era irritadiço e rebelde. Não fossem os maus-tratos constantes do pai, ele nunca teria nem sequer passado em frente a uma igreja. Já Odran concluiria mais tarde que o sacerdócio era realmente adequado à sua personalidade.
Da ingenuidade dos primeiros anos de colégio à descoberta dos segredos mais bem guardados da Igreja, o padre Odran Yates descreve uma Irlanda repleta de contradições e ódio por trás de um projeto social baseado nos bons costumes. Vive a decadência de seu ofício, que, diante de tantas denúncias de abuso sexual, passa a ser visto com desconfiança.
Mais do que lidar com a vida sofrida daqueles que ama e as implicações políticas de seu trabalho, o padre Yates tenta fazer um acerto de contas com a própria consciência, depois de ter sido convencido de que era inocente demais para entender o que ocorria ao seu redor.” Fonte

Jamais parei para pensar na vida dos padres, confesso. Por isso me surpreendi quando vi esse livro de John Boyne, mas, sendo dele, já esperava um bom livro e não me decepcionei, apesar de não ser a melhor de suas obras ou meu livro favorito dele.

O ritmo inicial é um tanto lento e demoram algumas páginas para o livro “engrenar”, apesar de já termos bons e importantes diálogos e alguns acontecimentos marcantes. Odran é um menino pertencente a uma família problemática na tradicional Irlanda da segunda metade do século XX, passando pelo trauma de perder o pai alcoólatra e frustrado juntamente com o pequeno irmão em um afogamento nas férias de verão. Depois desse fato, sua mãe nunca mais se recuperou e se transformou em uma católica fanática, que o levou à vida do sacerdócio. Apesar disso, Odran não se ressente do fato, abraçando essa vida, mesmo com seus sacrifícios, sabendo que realmente tinha inclinação para ela.

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O livro alterna entre passado e presente, os títulos dos capítulos sendo os anos em que se passam. Temos a vida regressa de Odran, sua infância junto com a mãe e a irmã, a adolescência reclusa nos estudos para ser um padre, sua passagem pelo Vaticano – uma das melhores partes do livro, a intrigante amizade com Tom, um padre que quando garoto não aceitava o sacerdócio e tinha problemas familiares para, então, mais velho, ter problemas na profissão.

Com uma sutileza ao mesmo tempo impressionante e atordoante, John Boyne direciona a história para o tema terrível do abuso sexual, um tabu na Igreja, que acabou se tornando um vinho amargo para todos os membros do clero, até os inocentes. E então você se pega empatizando com as boas pessoas, como Odran, que apenas queriam ser bons padres, bons em seu trabalho. O cerne do livro está na frase da contracapa:

“Que mundo é este em que vivemos, quanto mal causamos às crianças.”

Desde Odran Tom, passando por várias outras pessoas, conhecemos crianças que tiveram suas vidas transformadas de maneira terrível e irreparável por adultos que deveriam cuidar delas. O livro toca num ponto sensível, seja ele da Igreja ou da própria família, dos pais, que não souberam proteger suas crianças, que não as ouviram quando precisaram, que talvez tenham sido seus próprios carrascos. É um livro cruel, dolorido, que por vezes choca, mas na maior parte do tempo machuca. Por vezes, segurei o nó na garganta e o enjoo ao me deparar com situações irremediavelmente tristes.

A edição da Companhia das Letras está impecável, tanto em revisão, quanto diagramação e a capa, que demonstra de maneira fiel o sentimento de isolamento, abandono e solidão que o título e a trama abordam. O livro é extremamente confortável de ler, no tamanho ideal, com uma capa molinha que se dobra facilmente, mas não fica marcada.

Como disse, não é o melhor livro de John Boyne, na minha opinião, mas certamente é um livro importante, com um tema difícil e que precisava ser contado. Recomendo, especialmente para quem já gosta do autor. Mas, vale lembrar, é uma de suas obras adultas, portanto não leia esperando algo como O Menino do Pijama Listrado (apesar de Uma história de solidão ser quase tão triste quanto ele).

Livro gentilmente cedido para resenha pela Editora Companhia das Letras.

Ficha Técnica

Título: Uma história de solidão
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 416
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) Amazon / Livraria da Folha / Travessa / Saraiva
Avaliação: 

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