Resenha: Uma vida no escuro


Quando li a sinopse desse livro pela primeira vez, achei que se tratava de ficção, e das mais fantasiosas. Como assim uma pessoa não consegue viver na luz, nenhuma luz? Infelizmente, estava muito enganada. A história de Anna Lyndsey é real. Uma vida no escuro é uma das auto-biografias mais interessantes, angustiantes e belas que já li. Daquelas histórias que fazem com que você valorize cada pequena bênção em sua vida.

Uma_Vida_Escuro“Com uma carreira consolidada e um apartamento recém-comprado em Londres, parecia que a única preocupação de Anna Lyndsey seria a manutenção de seu padrão de vida. No entanto, o que começou como um desconforto diante da tela do computador revelou-se uma grave sensibilidade a qualquer fonte de luz. Em pouco tempo, trabalhar tornou-se inviável, e mesmo atividades corriqueiras passaram a causar dores lancinantes. Conforme os sintomas foram se agravando, ela precisou abrir mão da casa, da independência e de qualquer possibilidade de planos futuros.
Diante do relato de Anna sobre seus dias na escuridão, é impossível para o leitor não se perguntar o que de fato é fundamental. Se quase todas as opções fossem retiradas, das mais corriqueiras às mais preciosas, o que faria a vida continuar valendo a pena? Em uma situação em que as luzes e telas que deveriam significar segurança e comodidade são um perigo iminente, não seria de se admirar que Anna entrasse em depressão ou até mesmo cometesse suicídio.
No entanto, ela nos revela uma existência com mais nuances do que se poderia esperar de alguém mergulhado no mais profundo breu. Entre audiolivros, jogos de palavras e formas inusitadas de banir os raios de luz, Anna descobre meios de afastar os pensamentos deprimentes e perseverar mesmo com a incerteza de sua condição. Com seu contato com o mundo externo restrito à família, ao marido e às raras visitas, ela aprende a valorizar cada segundo de remissão da sua sensibilidade, admirando a natureza, a rotina e até as tarefas domésticas de uma perspectiva completamente nova.” Fonte

Imagine viver totalmente no escuro. Não estou dizendo apenas de evitar a luz do sol, como os vampiros das histórias de fantasia e terror, mas precisar se esconder num quarto completamente sem luz, seja natural ou artificial. Não é possível ler, nem livros de papel ou digitais, porque você não aguenta sequer a luz tênue do leitor ou a do computador. As necessidades básicas – comer, evacuar, tomar banho – precisam ser feitas rapidamente e na penumbra. Tudo isso de uma hora para outra, amputando sua liberdade e sua vida até o limite da sanidade.

“A amizade brota de uma sementinha discreta e, com o tempo, ganha raízes fortes que envolvem nosso coração. Quando um romance termina, a árvore é arrancada depressa numa operação dolorosa, mas clara. Já a amizade murcha silenciosamente, e sempre resta a esperança de que vá brotar de novo. Só depois de um tempo reconhecemos sua morte, e então passamos anos arrancando do peito fibras ressecadas.” Página 98

É assim que Anna Lyndsay vive. Por causa de uma doença que a incapacita de ficar sob qualquer luz, sob a punição de sua pele sofrer dores e feridas horríveis, ela passa seus dias dentro de um quarto escuro, ouvindo audiobooks, inventando jogos mentais de palavras cada vez mais desafiadores, tentando fazer o tempo passar. Ela tem o apoio incrível do marido, mas a vida não é nada fácil. É difícil continuar.

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Mas ela vive, e é lendo esse livro que percebemos o quanto somos sortudos. Existem biografias completamente inúteis e equivocadas – e nós as vemos aos montes hoje nas livrarias -, mas essa é extremamente importante. A autora divide com o leitor suas angústias, desejos e inseguranças, sonhos, pequenas vitórias e inúmeros fracassos. É angustiante, mas também vibrante e inspirador. Anna Lyndsay descreve o antes da doença com nostalgia e a sua vida na escuro com melancolia e sensibilidade. Apesar da escuridão de seus dias, esse não é um livro sem luz, pelo contrário: é cheio de vida, cores e descrições repletas de sentimento e sinceridade.

“Chorar me traz alívio. Alguma substância química é liberada no cérebro, pelo que ouvi dizer, o que normaliza o humor, mesmo que a situação continue a mesma. Um sábio mecanismo de autocontenção, pelo qual, sem dúvida, devemos agradecer à evolução humana.” Página 105

A edição é confortável e caprichada, com uma capa aveludada repleta de pontinhos brilhantes, um deleite para a estante. Terminei o livro emocionada, torcendo de coração para que Anna (o nome é um pseudônimo e não se sabe realmente quem é a autora), onde quer que esteja, viva bem, viva feliz. E que as pessoas na mesma situação dela, ou em outras situações difíceis e limitadoras, fiquem bem e encontrem felicidade e paz da melhor maneira que conseguirem. Quanto a nós, privilegiados que somos, vamos valorizar o muito que temos.

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Intrínseca.

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Ficha técnica:

Nome: Uma vida no escuro
Autor: Anna Lyndsay
Páginas: 248
Editora: Intrínseca
Onde comprar: Saraiva / Amazon / Livraria Cultura / Livraria da TravessaSubmarino / Shoptime
Minha avaliação: 

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