Resenha: Vox

Ficha técnica:

Nome: Vox

Autor: Christina Dalcher

Tradutora: Alves Calado

Páginas: 320

Editora: Arqueiro

Compre aqui

Sinopse:

“O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.

Esse é só o começo…

Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.

…mas não é o fim.

Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.”

Vox foi um livro que me interessou antes de ser publicado no Brasil, pela Editora Arqueiro. Li algumas resenhas muito positivas e o livro foi vendido como “o novo O Conto da Aia“, o que obviamente me interessou. Comprei o livro em uma promoção do Submarino e comecei a ler assim que ele chegou em casa, mas, apesar do início tenso e eletrizante, a partir da metade até o final o livro desce a ladeira e decepciona.

Jean McClellan é uma doutora em neurolinguística, mas não pode trabalhar e praticamente nem falar. Em pouco tempo, os Estados Unidos se transformaram em um governo fundamentalista religioso e as mulheres perderam (quase) todos os direitos; todas, inclusive as crianças, são obrigadas a utilizar uma pulseira com um contador de palavras. Elas só podem falar 100 por dia. Uma pessoa fala, em média diariamente, 16 mil.

As mulheres agora vivem para o lar, a casa e os filhos. Jean é casada com um homem que ela já amou, porém perdeu a admiração e o respeito; sua falta de energia quando as mulheres perderam seus direitos fez com que Jean perdesse o encanto por ele. Com quatro filhos, três garotos e uma menina pequena, Sonia, Jean está preocupada com o desenvolvimento cognitivo da filha, impossibilitada de falar. É perverso. Todo o desenvolvimento e ambientação no início do livro, quando conhecemos esse novo universo e nos deparamos com a opressão que as mulheres e a protagonista sofrem, é escrita de maneira brilhante e você realmente sente o estômago revirar. Chega a ser uma leitura angustiante e dolorosa, porém viciante.

Mas quando o irmão do presidente dos EUA sofre um acidente e perde a fala, Jean é convidada a integrar a equipe para descobrir a cura para sua enfermidade. Ela encara a proposta com descrença, mas acaba aceitando porque percebe que é a única chance de ajudar sua filha (ao menos temporariamente) a se livrar da pulseira e afastá-la da escola, onde ela está sendo treinada para se tornar uma dona de casa e não falar.

Há algumas incongruências no livro, que até essa parte, quando a coisa toda flui, você ignora; porém, em um governo tão opressor para as mulheres, no qual elas sequer podem falar, trabalhar ou ter conta no banco, como elas ainda podem dirigir, por exemplo? Não faz sentido. Faltou trabalhar mais os aspectos sociais da história e encaixar todas as peças.

É a partir daí, de quando Jean volta a trabalhar, que as coisas degringolam no livro. A autora se perde em muitas descrições do laboratório onde trabalham e a leitura começa a se tornar morosa. Além disso, Jean se envolve com um colega de trabalho, reiniciando um caso amoroso que não acrescenta e só parece atrasar a história. As tramas de conspiração do governo e a violência que as mulheres vivem passam para segundo plano, e você, como leitora, se sente traída. O livro rapidamente se torna exaustivo e enfadonho.

Não que não haja momentos brilhantes, mesmo nesse meio tempo; algumas cenas me impactaram bastante, especialmente as referentes a uma subtrama do filho mais velho de Jean e sua namorada, e tudo que daí se desenrola. Chega a ser assustador. Há também a história da antiga amiga da protagonista e ativista que foi presa, que renderia muito mais se fosse mais desenvolvida. Porém, essas trama são reduzidas e alternadas com o drama de Jean e seu amante, que é um cara monótono e que muitas vezes ofusca a protagonista, ao resolver as coisas no lugar dela ou para ela. Isso vai contra toda a ideia do protagonismo feminino do livro e sua história.

E então, com muito esforço, chegamos ao final. E ele decepciona. Jean praticamente não faz nada de relevante durante o conflito final – que dá uma sensação de insignificância, apesar de a autora querer torná-lo grandioso. Explico: o acontecimento é pequeno, mas acaba revolucionando o país, e tudo isso acontece de maneira apressada e irreal, porque o que eles fizeram não mudaria muita coisa se aquilo estivesse acontecendo de fato. A sensação é de um grande Deus Ex Machina mesmo. Mas o mais frustrante é a pouca participação da protagonista, já que os maiores conflitos quem resolve são seu amante e seu marido. Novamente, homens resolvendo tudo. Os capítulos finais dão a impressão de que estamos vendo um comercial de margarina se desenrolar diante dos nossos olhos, o que é irritante, e você termina tudo com a sensação de que foi uma grande perda de tempo.

A edição da Arqueiro é muito boa, diagramação confortável, boa tradução, preparação e revisão, capa simples, mas eficaz (e tão branca que dá até pena de pôr as mãos). Mas nada disso salva um livro fraco, que tinha tanto potencial, mas infelizmente decepciona.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...


  • cris disse:

    Que história marcante, esse livro me parece aquele que nos trás uma reflexão, com um enredo de ficção e um drama de tirar o fôlego. Parabéns pela resenha fiquei muito curiosa para saber como acaba esse enredo e como a sociedade machista irá reagir, obrigado pela dica. Bjs!

  • Ana Caroline disse:

    Olá!

    Dentre tantas resenhas que eu leio desde o lançamento desse livro, a sua é a única negativa.
    Gostei das suas pontuações, tenho certeza que eu iria perceber os mesmos pontos e me irritar com a leitura. Contudo, ainda pretendo ler o livro, porém o farei sem grandes expectativas.

  • Vitoria Doretto disse:

    Oi!
    É uma pena que a leitura não tenha sido tão proveitosa para você. Acho que apesar dos pontos negativos levantados, a história de Vox é extremamente importante (assim como a do conto da aia) para o momento em que estamos porque ela serve como um aviso bem lúcido e cruel (ainda que com um senso de realidade imenso) do que pode acontecer numa sociedade. Beijo!

  • Luna disse:

    Lamento que a história tenha te decepcionado. Eu, pelo contrário, amei muito o livro e os temas importantes que ele aborda, servindo como um alerta para as pessoas. Para que despertem, pois distopias como O Conto da Aia e Vox podem, infelizmente, se tornar realidade.

    A questão de elas ainda poderem dirigir para mim não foi incongruente, pois existe na vida real sociedades em que as mulheres não possuem muitos direitos, mas conquistaram (recentemente até) o direito de dirigir. É algo que se passa na vida real.

    Só concordo com você em dois pontos: que o amante da Jean atrapalha a história mais do que ajuda. Eu o detestei. Sério, sobretudo por ele querer fugir com ela e deixar os filhos dela para trás, incluindo a pequena Sonia, que tanto precisava da mãe. O egoísmo desse homem me fez detestá-lo e querer sacudir a Jean por ser tão idiota perto dele.

    O outro é o final: que para mim foi péssimo. O livro é inteiro incrível, mas o final decepciona muito. Espero que a continuação de Vox (já que dizem que é uma série) consiga nos fazer superar aquele final.

    Bjs!

  • Maria Luíza Lelis disse:

    Oi, tudo bem?
    Que pena que esse livro tenha te decepcionado tanto. Acho sempre complicado quando comparam um novo livro com algum outro sucesso. Perdi as contas de quantas vezes me decepcionei com um “novo Harry Potter”. Eu li O conto da aia e adorei, então, imagino o quanto sua expectativa estava alta para ler Vox.
    Vi muitas pessoas falando que se decepcionaram com esse livro também, principalmente o final. Achei uma pena, porque a premissa é muito boa. De qualquer forma, adorei a resenha.
    Beijos!

  • Mayara Milesi disse:

    Ola!!! Como está?

    Esse livro é aquele tipo de livro que o marketing promete, promete, promete e então quando compramos a obra, não é em nada aquilo que esperávamos. Não consegui concluir a sua leitura, mas ainda espero um dia concluí-la mesmo sabendo todos os pontos negativos e tudo mais.

    beijos

  • Antonia Isadora de Araújo Rodrigues disse:

    Olá Karen!!!
    Você é a primeira pessoa que me deparo que diz que o enredo desse livro foi fraco, o que acabou me dando uma desestimulada acerca do mesmo.
    Uma pena que uma história tão boa tenha se perdido no meio do caminho e seu fim não foi lá essas coisas.
    Mesmo assim vou tentar ainda dar uma chance, mas não vou mais com tanta expectativa para o mesmo.

    lereliterario.blogspot.com

  • Carolina Trigo disse:

    Oi, Karen!
    Eu comprei esse livro no começo do ano e estou bem ansiosa para ler.
    Ao mesmo tempo que fiquei triste por você não ter gostado, é sempre bom ler uma resenha diferente, pois nos faz não irmos muito esperançosa para a leitura.
    E sempre acho que comparações com obras que já são famosas e que já fizeram o seu sucesso sempre tuim, pois pode mudar a expectativa do leitor. Como nesse caso, não precisa dizer que é o novo Conto da Aia. É Vox e apesar de ter algumas semelhanças, são histórias bem diferentes. Acho isso sempre péssimo, pois um livro que poderíamos gostar, pode ser atrapalhado por causa disso.
    Bjss

  • Dayhara disse:

    Que pena que a obra não é tudo isso que apresenta ser, ela tem todos os elementos pra ser uma história brilhante, porque nos dias de hoje esse tipo de história é super necessário, mas infelizmente não foi tão bem aproveitado, ne? Uma pena, em todo caso, os pontos ressaltados por voce me deixaram curiosa para entender como a autora descreveu tudo isso.

PREENCHA OS CAMPOS ABAIXO PARA DEIXAR SEU COMENTÁRIO




Mensagem