Terça Livre: O Conto da Aia e a perda de direitos

Chegou minha Terça Livre e, a cinco dias das eleições, resolvi trazer para vocês um debate sobre esta obra poderosa e assustadora de Margareth Atwood – e como a ficção caminha muito perto da realidade.

E antes que alguém fale que este post é de viés político, falo em nome do blog sim: de mim, da Lucy, da Lany e dos colaboradores. Todos aqui somos #EleNão. Para quem respira literatura como nós, é impossível não se posicionar diante de tal catástrofe democrática.

Li O Conto da Aia ano passado, em e-book. Eu já conhecia na época a autora Margaret Atwood de ouvir os relatos da autora e amiga Melissa de Sá (resenhas), uma vez que ela estudou a autora em sua dissertação de mestrado na UFMG, mas ainda não tinha lido nada da escritora canadense. O livro voltou com força total às prateleiras durante as eleições de Donald Trump nos EUA e após sua vitória por lá (e antes que se diga que os EUA continuam sendo uma democracia, vamos lembrar que lá a democracia é uma instituição muito mais fortalecida que aqui no Brasil, onde temos eleições diretas há apenas 30 anos e uma Constituição tão jovem quanto).

O Conto da Aia foi o livro mais assustador que já li, e olha que como vocês sabem eu sou uma escritora de suspense e terror e leitora voraz de livros do gênero (Stephen King é Rei – resenhas dele aqui -, e vale lembrar, ele é um opositor ferrenho de Donald Trump, basta segui-lo no Twitter e verão por si mesmos). A obra de Margaret Atwood assusta pelo paralelo com a realidade, por mostrar um governo religioso totalitário e que o horror de um regime com perdas de liberdades não está nem um pouco distante de nós. Esse foi um dos livros que mais me aproximou das personagens, e se você é mulher lendo esta obra, é impossível não se impressionar e se identificar.

Nele, Offred é uma Aia. Aias são mulheres férteis que foram sequestradas e obrigadas a servirem em uma casa de senhores ricos, sendo estupradas uma vez por mês em um ritual religioso, a fim de gerarem um filho saudável para os homens poderosos na sociedade. Mas antes do novo regime assumir, Offred (que significa “De Fred”, ou seja, ela perdeu até o próprio nome) era uma mulher comum, com uma filha e um marido, que trabalhava em uma editora e levava sua vida. Agora, encontramos uma mulher que foi separada da família, impedida de ver sua filha (que também foi sequestrada e “adotada” por um casal abastado sem filhos) e que é maltratada e abusada todo o tempo; apesar disso e de ser a protagonista, Offred não é uma revolucionária, mas apenas uma mulher que quer sobreviver em meio àquela situação desastrosa (e como julgá-la? Em uma situação como essa, a maioria de nós apenas tentaria sobreviver a cada dia também). Durante o livro, encontramos mulheres de todos os tipos e percebemos como as reações são diversas: há as que são como a protagonista, há as que se revoltam e lutam, há as que lutaram um dia e desistiram por estarem exaustas, há as que foram descartadas e jogadas em campos de trabalhos forçados e há as que se agarram em qualquer pequeno tipo de poder para oprimirem outras mulheres.

E se você é um homem lendo isso e pensou que está a salvo neste mundo terrível apenas por ser homem, não se engane: vocês tampouco escaparam. Se você não é rico e poderoso, pode esquecer. No livro encontramos homens que perderam suas famílias (como o marido de Offred) e tiveram que fugir do país para não serem mortos, homens que não concordam com o regime mas foram obrigados a servi-lo para sobreviver nesse caos, homens que são marginalizados e transformados em mão de obra, sem direito a opiniões ou direitos. Claro, ser homem neste mundo não é nem de longe tão ruim quanto ser mulher (ou ser LGBT+, que são chamados “traidores de gênero – a heterossexualidade é compulsória neste governo), mas o que quis dizer aqui é que nenhum direito ganho está a salvo, nem mesmo dos homens.

O voto feminino no Brasil foi assegurado apenas em 1932; não completou sequer 100 anos. A lei que estipula o pagamento de décimo terceiro salário foi criada há apenas 53 anos, em 1965. A ditadura militar durou 21 anos, e a Constituição Federal é de 1988 (quantos de nós nascemos sem uma Constituição ou ainda dentro do período da ditadura?). O Conselho Federal de Psicologia do Brasil deixou de considerar a opção sexual como doença apenas em 1985. A primeira eleição direta após a ditadura foi apenas em 1989. O fim da CPMF foi há apenas dez anos.

Quase todos nossos direitos como cidadãs e cidadãos brasileiros são muito recentes. Muito. Podem ser extinguidos num piscar de olhos.

Em O Conto da Aia, as pessoas também tinham uma vida normal, trabalhando, estudando, com suas casas, famílias e vidas. Os direitos foram sendo retirados aos poucos, mas ninguém se preocupava, porque acontecia com os outros, com as minorias. As contas bancárias das mulheres foram zeradas e o dinheiro transferido para seus homens “guardiões”,  como maridos ou pais. Depois, elas foram proibidas de trabalhar. E, finalmente, foram caçadas e obrigadas a servirem como escravas sexuais, alegando-se que gerar um filho para conservar a humanidade era uma bênção divina.

No livro, o terror é mais psicológico. Mas há também a série da Hulu, The Handmaid’s Tale, na qual o horror é bem mais gráfico. Tanto o livro quanto a série valem muito a pena. Leiam, assistam. A literatura, a cultura estão aí para abrir mentes. Reflita. E tenham empatia: o maior poder da leitura é gerar empatia no coração dos leitores.

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  • Netto Baggins disse:

    Parabéns pelo texto Karen. Perfeito.

  • Pamela Carolina disse:

    Muito interessante esse livro, nunca tinha visto nenhum livro do tipo, não sou fã de histórias de terror, prefiro suspenses mas não tão assustadores, mas gostei do que a história se trata.

  • Karini disse:

    Tudo bem?
    Eu li O Conto de Aia e gostou muito.
    Sobre as eleições e todo o cenário político atual, também já fiz a minha escolha.
    Nossa “democracia” e nossa constituição realmente são coisas ainda bastante frágeis.

    Seu post é interessante e com educação, bom senso .. é bom que as pessoas conversem sobre as opções e as dúvidas que se possa ter.

    Beijos

  • Beatriz Andrade disse:

    Antes de qualquer coisa, #EleNão
    Eu tenho muita vontade de ler esse livro, com certeza ele tem mensagens muito importantes e mesmo sendo uma leitura que acho ser pesada eu sei que teria uma boa experiência. Gostei de ver esse seu post e agora eu fiquei ainda mais interessada na leitura, mas eu ainda estou criando coragem para lê-lo, esse tema mexe demais comigo e tenho que me preparar psicologicamente para conseguir ler.

  • Florescendo Livros disse:

    Olá
    Olha não tenho palavras para descrever como o seu texto me inspirou, me deixou com vontade de ler O Conto da Aia e me fez refletir sobre coisas pontos fortes que eu ainda não tinha nem sequer imaginado. Não estou apoiando nenhum politico até agora, mas com certeza #elenão
    Obrigada pelo texto, e pela indicação.
    Me serviu de grande reflexão pessoal como cidadã
    Beijos

  • Bruna Costabeber disse:

    Oi!
    Onde eu posso te abraçar? Cara, que texto INCRÍVEL! Ainda não li O conto da Aia, mas tenho medo de ler, porque o terror dele é real, é algo que aconteceu/pode acontecer de novo. Acho que é por isso que foi um livro que te assustou tanto.
    Os nossos direitos (falo de todos, tá?) é recente demais, principalmente porque nosso país é novo. Não somos um país velho, somos um bebê perto de outros países.
    É muito triste ver as pessoas não valorizando tudo o que conseguimos até hoje e jogando tudo isso no ralo, porque não vejo outra analogia possível de colocar aqui. Estou com medo, muito medo do que será de nós em 2019.
    Espero que possamos escolher algo melhor e ter um Brasil melhor e não retroceder :(
    Beijos

  • Clayci Oliveira disse:

    Primeiramente: #EleNão , Ele nunca, nunquinha, jamais…
    Adorei a publicação e a escolha do livro para falar sobre um assunto tão necessário. Acredito que seja importante se posicionar <3 Eu li este livro depois que assisti a série Alias Grace. Até então eu não conhecia a autora e nem a sua escrita (e nem sabia da adaptação desse livro).
    E fiquei chocada com o enredo e a visão. É muito real e chega a dar medo =/
    Essa geração não viveu muitas coisas, e faço parte dela, mas sempre gostei de história e convivi com pessoas que sofreram esses períodos. Não quero isso para mim, nem pros meus sobrinhos e nem pra ninguém. <3 Ódio não se resolve com Ódio.

    Beijos

  • Marijleite disse:

    Olá, obrigada por usarem o blog para falar desse assunto tão importante, a literatura pode nos ajudar a abrir os olhos para o que está acontecendo na realidade. O Conto da Aia é uma leitura que quero fazer, quero também ver a série, apesar de não saber se vou ter coragem de assistir, pois me parece extremamente cruel a realidade da trama.

  • Debyh disse:

    Olá,
    Terror psicológico realmente é algo mais assustador. Sempre acho que vou achar qualquer coisa relacionada ao Conto da Aia bem forte e pesado de se ler.
    O tema com toda certeza deve ser abordado sim, ainda mais porque tantas pessoas esquecem quão pouco tempo faz que essas coisas aconteceram.

  • Sexta do Sebo #287 « Por Essas Páginas disse:

    […] Chegou a sexta-feira. Mas desta vez não consigo chegar aqui com animação, os tempos são sombrios, livros estão sendo proibidos em escolas e a violência toma as ruas. Sugiro que leiam a Terça Livre desta semana. […]

  • Alice Lacerda Montiel disse:

    Oii Karen

    Seu texto está incrívle e realmente é dificil imaginar a catástrofe que pode ocorrer basta uma decisão errada. Eu sinceramente quero muito que essas eleições acabem logo, acho que ultimamente tem havido muita manifestação de ódio em vários lados, não apenas no do #eleNão, mas também do ladod e sue principal oponente. Eu graças ao bom Deus não pretendo votar em nenhum dos dois senhores…rsrs, e caso haja segundo turno meu voto é nulo pois não compactuo com as propostas de nenhum dos dois principais candidatos.
    Quero demais ler O Conto de Aia, porque é um livro que nos convida a refletir, nos mostra um possivel panorama e em tempos atuais acho que se torna cada vez mais necessário haver uma conscientização, e os livros trazem exatamente isso.

    Beijos

    http://www.derepentenoultimolivro.com

  • Carolina Durães de Castro disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Eu não li e nem assisti a série e vou ser bem sincera: ao ter lido a sinopse e assistido ao trailer, senti um aperto no coração. Talvez por ter feito essa correlação ao estado atual da sociedade, a verdade é que não tive coragem de iniciar essa leitura.
    Bjkas

  • Tânia Bueno disse:

    Parabéns pelo texto reflexivo e achei a premissa do livro interessante, apesar de lendo a sua resenha doer na minha alma, mas realmente temos que refletir e muito.
    Embora eu seja apartidária realmente não acredito em um retorno ao passado, não isso não ocorrerá. A grande verdade é que cada governante manipula a população de uma forma ou de outra e isso independe de partido, não acredito na boa vontade deles e não caio no lariado de que são patriotas e fazem parte da política pelo bem do povo e do país, balela pura. Existe sim uma ínfima minoria deles que age e pensa em prol da população, do país e do planeta, mas a enorme maioria do políticos está lá para se garantirem, enriquecerem e tudo o mais. Depois que vi Lula abraçando Maluf como amiguinhos, Lindenberg Faria de conversinha amiga com o Collor e tantos outros me desanimei de vez. Fora que presenciei Lula fazendo acordos indecentes com empresários quando era presidente do sindicato dos metalúrgicos.

    Bjo
    Tânia Bueno

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