Top Ten Tuesday: Dez livros aprovados por Killgrave

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Todo mundo aqui já assistiu Jessica Jones no Netflix? Não? Então vai assistir! Pra quem não sabe, Jessica Jones é uma heroína da Marvel que ganhou série própria no streaming (e ela é uma heroína f*da mesmo). O vilão da série é Killgrave, também conhecido como Homem Púrpura, um cara que tem o poder de controlar mentes (ou seja, tudo o que ele diz pra você fazer, você faz) – e o plus, ele é interpretado por David Tennant. A série não é apenas sobre super-heróis; ela toca em assuntos profundos e importantíssimos como abuso e estupro. Killgrave é obcecado por Jessica e, por um tempo, controla sua mente, seu corpo e suas ações em um relacionamento abusivo.

Relacionamentos abusivos existem aos montes por aí, nem precisa da metáfora de um super vilão que controla mentes; certos homens tratam mulheres (e o contrário também existe) como lixo e abusam sexual e psicologicamente delas, e o que mais impressiona: esse tipo de relacionamento muitas vezes é tratado de maneira romântica, seja em filmes, novelas, séries e, até mesmo, livros.

Certo dia, eu e Melissa de Sá (escritora e blogueira lá no Livros de Fantasia) estávamos conversando sobre isso e chegamos à pergunta: quais livros tratam de relacionamentos abusivos e seriam exatamente o tipo aprovado por Killgrave? Aproveitando o Top Ten Tuesday Freebie, listarei abaixo dez livros que tratam desse tema, seja de maneira responsável e séria, seja de maneira perturbadora e aterrorizante, seja daquele jeito romântico e muitas vezes irresponsável que algumas obras fazem. A intenção desse post não é dizer se um livro é bom ou ruim, literariamente falando ou em termos de diversão, mas sim parar para pensar se aquele casal, à primeira vista, bonitinho, se aquela relação, à primeira vista, romântica, ou se aquele personagem, à primeira vista, perfeito, são realmente saudáveis. A ideia não é parar de ler, mas sim ler com visão crítica. Será que estamos prestando mesmo atenção nisso? Será que não estamos projetando relações românticas literárias em nossas próprias vidas? Será que isso é bom pra gente?

Se tem o selo Killgrave, talvez não.

O Top Ten Tuesday é uma criação de The Broke and the Bookish.

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Cinquenta Tons de Cinza/ Grey, E. L. James (leia a resenha)

Como não citar Cinquenta Tons de Cinza (e a sua versão na visão masculina, Grey)? E se você acha que vou falar do sexo masoquista entre Anastacia e Christian, está redondamente enganado; se há concordância entre as duas partes, não importa como se chega ao prazer (apesar de que no livro Christian exige que Anastacia esteja sempre pronta para o sexo, o que é sim um abuso – e tem um nome, estupro). O problema maior é o que acontece quando os dois estão fora da cama: quando Christian manda Anastacia comer (o maldito tempo todo), quando dá a ela um contrato absurdo para assinar – e ela assina!, quando a persegue no trabalho, na casa da mãe, em todo lugar, quando a humilha – verbal ou sexualmente, sabendo muito bem que ela está desconfortável, quando ele a compra com presentes caros… São muitos os exemplos. Isso não é romântico, não é bonitinho. Isso é um relacionamento aprovado por Killgrave.

A coisa fica ainda pior quando vista nos olhos de Christian, em Grey: o cara é completamente obcecado por Anastacia (se ainda não deu para perceber pela visão dela). Chega a ser patológico, uma obsessão doentia e aterrorizante. Ele pensa nela o tempo inteiro. Isso não é saudável; um relacionamento saudável, com amor, é baseado em respeito e equilíbrio, com cada um preservando sua própria individualidade, física e mental, com respeito ao espaço do outro, equilibrando o relacionamento amoroso com as outras áreas na vida de uma pessoa, como o trabalho, o estudo, a família e os amigos. Na verdade, Christian não ama Anastacia: ele ama o poder que exerce sobre ela.

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Belo Desastre, Jamie McGuire (leia a resenha)

Não há sexo pesado em Belo Desastre (por isso eu disse que sexo pode ser um tipo de abuso, mas não o único), mas há muita violência verbal e psicológica. Travis é um cara violento e machista e isso só piora quando está com Abby, por quem alimenta uma atração doentia. É aquela velha história: se um cara te despreza, te trata mal, briga com você, bem, só pode ser porque ele está apaixonado! Que conclusão deprimente. Travis trata Abby como lixo o livro inteiro (ou como propriedade, o que é ainda pior), antes dos dois terem um relacionamento e depois. E o contrário é válido, porque Abby também o trata como propriedade, aquele pensamento de “meu homem”, como se alguém pertencesse a alguém.

(Fato interessante: Belo Desastre ainda é uma das resenhas mais acessadas e comentadas do nosso blog.)

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Quarto, Emma Donoghue (leia a resenha)

Uma mulher e um garotinho de cinco anos estão presos em um quarto, o universo dos dois. O garotinho nem imagina que o que exista fora daquelas paredes seja real – ele, inclusive, acha que lá fora é o espaço sideral. De vez em quando, a mãe recebe visitas de um cara estranho, que traz “presentes” como comida e roupas, e ela não deixa o garotinho ver ou falar com o homem. Um dia a mãe diz ao garotinho que ele já está grande o suficiente e que precisa entender que há muito mais fora daquelas paredes.

Não preciso dizer claramente sobre o que é esse livro, certo? Mesmo se você não o leu (ou viu o filme) já percebe do que se trata. Talvez seja um dos ápices dos relacionamentos abusivos. É horrível quando você lê o parágrafo acima e imagina a situação. É pavoroso. Pois é, mas ela não existe só em seu ápice. Ela existe também como uma relação romântica, cercada por presentes caros; ela também existe naquele casebre pobre, onde uma mulher precisa sobreviver e cuidar dos filhos e não vê outra alternativa a não ser aceitar. Essa coisa horrorosa existe de várias maneiras. E a maneira como funciona a cabeça de Christian Grey ou Travis não é muito diferente de como funciona a cabeça do Velho Nick – e a do Killgrave.

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Dias Perfeitos, Raphael Montes (leia a resenha)

Narrado por um psicopata, Dias Perfeitos conta a história de como um cara obcecado por uma garota literalmente a enfiou dentro de uma mala e a levou para tirar férias regadas a muito abuso. Sequestro? Não na cabeça dele. Téo só acha que está fazendo um bem a Clarice. Ele acredita piamente nisso. Não importa se ela está presa, amarrada, sedada, machucada. Ela não sabe o que é bom para ela. Ele sim. Ela é uma mulher, e mulheres não sabem de nada. É nisso que Téo acredita. É assim que funciona a cabeça de homens como Killgrave.

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After, Anna Todd (leia a resenha)

Não li esse livro, mas ouvi a Lucy reclamando dele e ela disse exatamente essas palavras: “É um Belo Desastre.” Bem, então já sei do que se trata: um relacionamento destrutivo e emocionalmente abusivo, como a Lucy disse em sua resenha. Aliás, recomendo que leiam, ela diz tudo lá. Resumindo a ideia: “te odeio, mas te amo” + “te humilho e te trato mal, mas pedir desculpas e fazer sexo consertam tudo”. Selo púrpura do Killgrave.

No Escuro, Elizabeth Haynes (leia a resenha)

Esse livro mostra, de maneira perturbadora, mas brilhantemente real, o que acontece com uma pessoa após ela ser abusada. Aliás, até se pode traçar um paralelo ótimo entre No Escuro e Jessica Jones, afinal pegamos a série quando Jessica conseguiu se libertar do controle de Killgrave e está passando por estresse pós traumático, afundada em bebida. Em No Escuro, a narração é feita por Catherine e Cathy, a mulher do antes e a do depois do abuso. E, nesse caso, o abuso ia além do emocional, mas também físico, com violência e força bruta. É um livro que deve ser lido. O cara da história é absurdamente parecido com o Killgrave (tão charmoso quanto ele, aliás, e esse tipo de cara é assim mesmo: charmoso, manipulador, encantador, o que é o mais perigoso de tudo).

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A Garota no Trem, Paula Hawkins (leia a resenha)

Vou tomar cuidado com spoilers, mas, basicamente, essa é uma história de mulheres muito diferentes, mas com o abuso em comum. Há aquela que pensa que fez tudo errado, que é uma pessoa horrível e imprestável porque um homem a fez pensar dessa maneira; há aquela que pensa que está tudo bem até descobrir que o homem com quem divide a cama é um mentiroso patológico; há aquela que acha que é OK só se divertir até que algo dá errado e um cara não quer assumir o erro que ambos cometeram e joga toda a culpa nela. De muitas maneiras, verdadeiro e perturbador.

Gelo Negro, Becca Fitzpatrick (leia a resenha)

Em resumo: um romance em que uma refém se apaixona e é correspondida (?) por seu sequestrador com pinta de cara malvado. Leiam a resenha da Lucy e tirem suas conclusões, mas, para mim, é aprovado pelo Killgrave.

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Crepúsculo, Stephenie Meyer

Quase um clássico, o livro que gerou o BOOM de obras semelhantes. Não que Meyer tenha inventado a roda, mas com certeza deu uma ajudinha enorme a popularizá-la. Edward não vê nada errado em seguir Bella para todo o canto (ele acha que está protegendo-a do perigo, claro!). Bella não vê nada errado em querer se matar quando Edward “dá um tempo no relacionamento”. Edward e Bella não veem nada errado em como Edward conduz Bella nas coisas mais simples, porque aparentemente ela é incapaz de agir e pensar sozinha. Está tudo ótimo e lindo. Killgrave aprova.

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Garota Exemplar, Gillian Flynn (leia a resenha)

Não são só homens abusivos que existem no mundo. Há o contrário também: mulheres abusivas. E Garota Exemplar representa isso de maneira brilhante. Sem spoilers, apenas leia o livro (ou veja o filme), mas o brilhante aqui é como a autora inverte os papéis e coloca um homem em um relacionamento abusivo emocionalmente e altamente destrutivo e, inclusive, a personagem que é o “Killgrave” da história se utiliza do machismo (sempre ele!) para oprimir o cara. Sim, o machismo também oprime os homens. E sim, há muitas mulheres abusivas também.

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A ideia desse Top Ten Tuesday não é dizer qual livro é bom ou ruim, qual deve ser lido ou não. Gosto é gosto, por isso mesmo coloquei na lista livros que amo, que odeio, que não li e até livros mais ou menos (só lendo as resenhas para saber). Você, leitor, pode gostar de livros que eu não gosto e odiar livros que eu amo. Mas o importante mesmo é refletir sobre esses relacionamentos. Ler criticamente e saber distinguir um romance saudável e admirável num livro de um relacionamento que é apenas abusivo e nada bonito. Livros, como toda forma de cultura, influenciam as pessoas.

E vocês? Têm algum relacionamento em um livro que seja aprovado pelo nojento do Killgrave?

jessica

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  • franciely disse:

    Achei o post ótimo. Sou fã de Jessica Jones e acho o Kilgrave um vilão sensacional na série (parte pelo bom trabalho do ator), mas sei separar o fato de gostar de uma boa atuação do de simpatizar com o personagem. Não dá pra ter pena dele pq ele está “apaixonado”. Me assusta pensar que a história desses livros citados combina perfeitamente com um cara caricato que é um vilão de quadrinhos. Pôxa, a vida real (mesmo que através dos livros) é bem assustadora. Confesso que de sua lista eu só li Garota Exemplar pois personagens femininas fracas não me atraem, mas é bom ver que nem todo mundo acha esses livros um “amorzinho”, pq eu tenho certeza que eu não iria achar.

  • Layana Macedo disse:

    nooooo eu nunca tinha pensado em Crepúsculo dessa maneira, talvez porque eu tenha lido/assistido quando adolescente. Mas está certinho mesmo..

  • Marília Sena disse:

    Adorei o tema, muito bom mesmo! Já li alguns desses livros e concordo, que por mais que não passe pela nossa cabeça “relacionamento abusivo”, seja por não saber bem o que de fato é um relacionamento abusivo, seja por estar tão absorto na história e não percebê-lo, é muitas vezes o que encontramos por aí…

  • Michelle disse:

    Oi!
    Só agora vi esse post e achei o tema ótimo!
    Desses livros que você citou, já li “Quarto”, “Dias Perfeitos”, “No Escuro” e “Garota Exemplar”. Realmente, fazem pensar sobre relacionamentos abusivos.
    Aproveitei e fiz minha própria lista sobre o assunto. Está bem atrasada, mas acho importante falar disso: http://tinyurl.com/h8y8mn4
    Beijo!

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